Que fazem os jovens na Internet?

sábado, 3 de outubro de 2009

As grandes diferenças no que diz respeito às atividades realizadas pelos alunos que têm ou não Internet no lar verificam-se sobretudo ao nível das tarefas que permitem comunicar como a utilização de programas de conversa direta (chat), que apresenta um diferencial percentual na ordem dos 31%, e o envio de correio electrónico, que atinge uma diferença de 38% entre os alunos consoante dispõem de uma ligação à Internet em casa, ou não.

A procura de informações para a realização de trabalhos escolares, ouvir música ou ver vídeos, transferir jogos para o computador pessoal e participar em grupos de discussão são, igualmente, atividades mais praticadas por quem tem ligação à Rede no domicílio.


(Atividade; percentagem segundo posse de Internet no lar)


Sem Net

Com Net

Visita Sites

96

94

Procura inf. de Interesse Pessoal

87

95

Procura imagens

91

89

Motores de Busca

89

92

Procura inf. Trabalhos Escolares

67

80

Vê vídeos ou ouve música

58

71

Comunica em direto

55

86

Envia mensagens por 'e-mail'

40

78

Download de jogos ou vídeos

38

52

Joga em direto

18

32

Responde a Inquéritos e Sondagens

18

31

Deixa comentários nos sites

31

34

Clico nas mensagens publicitárias

25

18

Participa em Grupos de Discussão

11

24

Cria páginas Web

13

21

Compras on-line

13

15


O Adolescente e a Internet

Em Santa Catarina, em quatro municípios da grande Florianópolis, encontramos muitas semelhanças e algumas diferenças essenciais nas relações entre jovens e internet, em comparação com os jovens dos países ricos. Trabalhando também com metodologias quantitativas e etnográficas, numa abordagem geral de ordem qualitativa, nossa pesquisa buscou também estudar as interações entre os jovens e a internet, incluída como uma tecnologia de informação e comunicação, numa pesquisa que procura saber como os jovens se apropriam e aprendem com as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC).

Nossa primeira descoberta é que o acesso à internet é muito mais extensivo do que supúnhamos: 73% de nossos 373 jovens dizem já ter utilizado a internet pelo menos “algumas vezes” , enquanto a média do jovens europeus é de 71% (declarando ter utilizado “ao menos uma vez”). Ou seja, os índices de nossa amostra são superiores à média européia, e muito acima da média da Espanha (37%), embora estejam bem abaixo daquela do Canadá (99%). Como país periférico do novo mundo, o Brasil incorpora rapidamente as inovações técnicas na medida das possibilidades sócio-econômicas: sendo campeão de desigualdade social, o acesso às novas tecnologias é profundamente marcado por esta desigualdade.

Nossa amostra inclui adolescentes da capital de um dos estados do sul, que está entre os mais ricos do país e, embora tenhamos incluído escolas públicas de bairros periféricos em nossa mostra, não tivemos um número significativo de jovens muito carentes que são legião nas escolas públicas de outras capitais. Um olhar mais atento nos revela, no entanto, que os maiores utilizadores (os que “costumam utilizar todos os dias”) estão entre os alunos das escolas particulares. Por outro lado, a parte da pesquisa qualitativa que trabalhou com crianças e adolescentes em situação de risco, ou seja, muito carentes, revelou-nos que o acesso às TIC ainda está longe de uma distribuição democrática e que operar um computador (mesmo sem internet) é um objeto de forte desejo (Experiência piloto, 1ª etapa da pesquisa, 2002).

Para tentar compreender as representações dos jovens quanto à internet, começamos por perguntar genericamente “o que é internet?” Sendo uma pergunta aberta de resposta bastante difícil, obtivemos 40% de não-respostas. Dentre os 225 jovens (60% da amostra) que responderam à questão, mais da metade (51%) apresenta respostas que destacam a função de comunicação da rede mundial de computadores, enquanto 28% indicam a função de acesso ao conhecimento e à educação (meio de pesquisa ou de estudo). Apenas 22% apontam a função de informação e um grupo ainda menor (9%) indica a função de lazer. (meio de diversão ou jogos).

Encontramos respostas diferentes na pergunta “por que a internet é importante na vida das pessoas”. Dentre os 70% de jovens que responderam a esta questão, há um alto percentual (41%) que enfatiza a função de informação, enquanto 26% dos jovens consideram que a internet é importante para o acesso ao conhecimento e à educação. Apenas 15% dos jovens destacam a função comunicação interativa, que, no entanto, é a função mais presente nas práticas dos jovens como veremos a seguir. Um número reduzido de jovens (0,6%) aponta a função lazer/diversão (jogos) como fator explicativo da importância da rede na vida cotidiana, enquanto 19% lembram a utilidade geral da rede. Ainda para conhecer as representações e opiniões dos jovens, apresentamos várias afirmações sobre a rede e solicitamos que declarem seu acordo ou desacordo com elas.
Tratando-se de perguntas fechadas, obtivemos altos índices de respostas que nos permitem
melhor discernir o que pensam estes jovens. Assim foi possível observar que uma grande
maioria (58%), por exemplo, considera mais fácil aprender com a internet do que com os
livros. A facilidade com que os jovens aprendem a operar os aparelhos eletrônicos é
também percebida por grande parte deles: 81% concordam que é fácil aprender a utilizar a
internet.

A quase totalidade dos jovens sujeitos desta pesquisa (92%) não concorda com a frase “Internet é perda de tempo”, revelando que, do mesmo modo que sobre a televisão, os jovens têm uma opinião muito positiva sobre a rede mundial de computadores. Esta opinião positiva, no entanto, não impede os jovens de ter também uma visão crítica tanto sobre os modos de uso (76% concordam com a frase “a internet pode viciar quem usa muito”, da qual apenas 21% dos jovens discordam), quanto sobre a confiabilidade das informações encontradas na rede: 52% não concordam com a frase “Podemos confiar nas informações que achamos na internet”.

A quase totalidade dos jovens (93%) concorda com a afirmação: “A internet é um meio de diversão”, e mais de um terço deles (34%) concorda com a afirmação que a internet vai substituir a televisão. No entanto, a grande maioria (64%) não concorda com esta afirmação e, como vimos em outra parte da pesquisa, a frequência à rede não faz diminuir significativamente a frequência à televisão, mas mostra que as duas telinhas são complementares na ocupação do tempo livre de nossos jovens.

As virtudes pedagógicas e as possibilidades educacionais da rede ainda não são percebidas pelos jovens: a grande maioria (79%) não concorda com a frase “A internet vai substituir a escola”. É importante ressaltar, no entanto, que existe já uma minoria significativa (18%) que concorda com esta possibilidade. Como vimos 73% de nossa amostra costuma utilizar a internet pelo menos “algumas vezes”, revelando um índice bastante alto de acesso a esta tecnologia de informação e
comunicação. Para melhor compreensão da acessibilidade e dos modos de uso da rede por nossos jovens, os dados que se seguem referem-se a estes 271 jovens utilizadores mais ou menos regulares da rede.

A instituição escolar, ao contrário dos países ricos, desempenha um papel pífio neste processo de democratização da internet: apenas 20% dos jovens utilizadores dizem ter conhecido a rede mundial de computadores na escola. Os pares, por outro lado, parecem jogar um papel mais importante: 25% dos jovens dizem ter utilizado pela primeira vez “em casa de um amigo”. A maioria dos jovens (35%) declara ter utilizado a internet pela primeira vez em casa, enquanto 8% dizem ter acessado a primeira vez no trabalho do pai ou da mãe. A acessibilidade tem a ver, pois, principalmente com a famílias, ou seja, com classe social.

Uma significativa maioria (61%) frequenta a rede há mais de 2 anos (em 2003), na média dos jovens. Este percentual é, no entanto, de 92% nas escolas particulares, revelando mais uma vez, claramente, as clivagens de classe no que diz respeito à acessibilidade. A importância do grupo de pares e das mídias, bem como a importância menor da escola e da família aparecem muito claramente nas respostas quanto à descoberta de novos sites: 76% dos jovens dizem descobrir novos sites graças aos amigos, 47% mencionam as mídias (tv e rádio, 25%; revistas e jornais, 22%); enquanto um grupo muito menor indica os professores (8%) ou os pais (3%) como fonte de informação sobre novos sites.

No entanto, segundo a percepção dos jovens, um grupo significativo de pais (44% dos jovens que se declaram utilizadores) tenta controlar o uso que os filhos fazem da internet, mas há um grupo maior (48% desses jovens), cujos pais não exercem nenhum controle, sempre segundo a percepção dos jovens respondentes, revelando que a internet não é percebida pela família como algo negativo ou perigoso. Ao contrário as restrições que são feitas referem-se ao tempo gasto e ao custo da conexão.

Os hábitos de uso mostram uma tecnologia já bastante integrada no cotidiano dos jovens alunos da escola básica: 34% declaram utilizar a internet “todos os dias ou quase todos os dias”, enquanto 37% dizem usar “muitas vezes”, o que nos revela um percentual muito significativo de usuários frequentes (71%).

As práticas mais frequentes (“sempre ou quase sempre”) revelam usos mais voltados à comunicação: uma maioria significativa frequenta os bate-papos (46%; 25% de meninos e 21% de meninas) e pratica a interação por e-mail (46%, metade meninos, metade meninas), o que contraria de certo modo as representações e opiniões relatadas acima, que destacam mais as funções de informação e acesso ao conhecimento e à educação. A escola não parece estimular muito o uso da rede para pesquisa: apenas 23% dosjovens dizem usar sempre a rede para pesquisa escolar. Um número maior (34%) declaranavegar ao acaso, visitando sites, enquanto 30% dizem “fazer download de jogos ou programas”, usos tipicamente de divertimento.

Há uma minoria de apenas 10%, quase todos meninos, que costuma jogar on line só ou com amigos, e uma grande maioria (51%) que usa a internet para ouvir (ou “baixar”) música (28% do sexo masculino e 23% feminino). Os modos de uso mostram que os jovens não navegam tão ao acaso e que, provavelmente porque o tempo é reduzido ou controlado, a maioria (52%) visita sites conhecidos escrevendo o endereço enquanto um número bem menor (23%) navega ao acaso “clicando em palavras e imagens”. Poucos utilizam sites de busca (18%) ou marcadores/favoritos (19%), o que revela um uso ainda reduzido de todas as possibilidades da rede.

O interesse pelo tema e a familiaridade com as tic que os jovens de todos os grupos que estudamos neste “survey” e nas partes mais qualitativas de nossa pesquisa, bem como, para aqueles mais carentes, que não têm acesso às tic, o fascínio e o desejo que elas inspiram, revelam que estas técnicas podem ser meios preciosos muito efetivos de melhorar a qualidade da educação e democratizar realmente seus benefícios.

 
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